Domingo, 23 de Junho de 2019

MÉDIO TEJO: preparar a reunião do Conselho de Comunidade do ACES

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FNAM: Reunião com comissões de utentes

FNAM: Reunião com comissões de utentes

 
https://www.fnam.pt/index.php/seccoes/informacoes/488-reuniao-com-comissoes-de-utentes

Reunião com comissões de utentes

Reunião com comissões de utentes

A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) reuniu, no dia 19 de Junho, com comissões de utentes, com o objectivo de trocar ideias, propostas e reivindicações sobre a situação no Serviço Nacional de Saúde.
A reunião contou com a participação da Comissão de Utentes em defesa do SAP 24 horas da Marinha Grande, da Comissão de Utentes de Santiago do Cacém, da Comissão de Utentes da Saúde do Concelho do Seixal e do Movimento de Utentes dos Serviços Públicos (MUSP).
Para a FNAM, o apoio solidário das comissões de utentes e de outras associações é muito importante para o sucesso da luta dos médicos.
A FNAM convida todos os utentes a apoiarem a greve dos médicos do dia 3 de Julho e a estarem presentes na concentração em frente ao Ministério da Saúde.
A luta da FNAM é também a luta por um Serviço Nacional de Saúde para todos os cidadãos!
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Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

Reunião da Comissão de Utentes

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Domingo, 16 de Junho de 2019

MÉDIO TEJO: carta aberta aos candidatos a deputados

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Sábado, 8 de Junho de 2019

Um bom exemplo no SNS

https://life.dn.pt/beatriz-craveiro-lopes-morre-se-muito-com-dor-em-portugal-e-isso-e-inadmissivel-hoje/?fbclid=IwAR2-KJg6_2kxskoPYB18Ki_is6B6YYszesgB8iSi1gTyMynDNwc5Lp9guZc

BEATRIZ CRAVEIRO LOPES: “MORRE-SE MUITO COM DOR EM PORTUGAL E ISSO É INADMISSÍVEL NOS DIAS DE HOJE”

É médica há 44 anos e há 27 fundou uma Unidade de Dor Crónica no Hospital Garcia de Orta, em Almada. O projeto, que é para ele uma causa, evoluiu e hoje Beatriz Craveiro Lopes tem uma equipa “excelente” e diversa a trabalhar com ela no seu Centro Multidisciplinar de Dor. Orgulha-se da «ilha boa» que construiu, equipou e organizou a pensar acima de tudo nos doentes e no seu direito a viver sem dor. A marquesa rosa-choque que chegou há pouco tempo à unidade condiz com o caráter vivo e lutador da médica anestesista que queria viver mais cem anos para ver a evolução da medicina na área da dor e ainda tem muito que fazer antes de se reformar. Antes e depois, adivinha-se.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Carlos Costa/Global Imagens

O Centro Multidisciplinar de Dor do Hospital Garcia de Orta, em Almada, é, nas suas palavras, uma ilha boa. Fundou-o vai fazer 27 anos. Como conseguiu conquistar este território?

A área da dor não é nova, mas é uma das mais recentes em medicina e para a qual é preciso ter habilitações e competência próprias. E este não é um serviço convencional, trabalham aqui médicos – três fisiatras, seis anestesistas, um internista, um neurologista – enfermeiros, psicólogos, psicomotricista, nutricionista e o centro já passou a fase do multidisciplinar para o interdisciplinar e é giro ver-nos a funcionar. Não é aquela medicina do século XX, com as especializações estanque, trabalhamos todos em interligação. Mesmo a marcação dos doentes – vai-se a qualquer sítio e marca-se a especialidade, mas aqui há uma agenda única e os doentes são distribuídos. Tem prós e contras, como em tudo, mas haja férias, haja congressos, haja doenças, que há sempre alguém para ver o doente, este não vai andar em bolandas para trás e para a frente porque o médico não pôde.

Como se chegou a esse carácter interdisciplinar?

É o desejo que todos temos, de todos a contribuir. Eu poderia comparar isto com uma orquestra. No multidisciplinar, tenho a sala dos pianos, a sala dos trompetes, a sala de cordas e pedia opinião a cada um. Outra coisa é ter o maestro com a orquestra toda a tocar em uníssono exatamente para o mesmo, isso é interdisciplinaridade.

Essa é a opção de olhar o doente como um todo, mas a medicina do século XXI, apesar de ter cada mais essa visão holística, também é cada vez mais especializada,

O que acontece com a medicina da dor? É o anestesista, o fisiatra, o neurologista, o neurocirurgião? Não, é quem, qualquer que seja a sua especialização de base, tenha uma competência em medicina da dor. Na universidade, a dor é muito esquecida. Fala-se dela, porque está presente em muitas doenças, mas dá-se umas coisinhas, umas pastilhas e pronto. A dor afinal é um sinal, um sintoma, ou é uma doença?

A maior parte dos nossos utentes, aqui no Garcia de Orta, que é um hospital polivalente, que serve uma população enorme, sofre de lombalgia, a dor nas costas, que é a patologia número um, esmagadora.

Essa era uma das perguntas que tinha para lhe fazer.

E se calhar é esse o ponto de partida. A dor pode ser um sintoma, enquanto sinal de alerta, mas quando passa a ser crónica é uma doença. Nunca é um sinal. Equiparou-se a dor a sinal vital, não o sendo – tanto que as pessoas sobrevivem mesmo com dor extrema, enquanto se tiver temperatura zero morre – para lhe dar visibilidade. Transformá-la em quinto sinal vital, obriga os profissionais de saúde a questionar os doentes sobre a dor, como o fazem (ou medem) com a febre, a tensão arterial ou a função respiratória. Ao equiparar a dor a sinal vital obriga os profissionais de saúde a questionar, indagar, registar, monitorizar e sobretudo tratar, porque tratar a dor é um direito dos cidadãos e um dever dos profissionais de saúde.

Onde entra então a medicina da dor?

Quando a dor se torna crónica e passa a ser doença. E é um mundo enorme. Geralmente, as pessoas identificam as unidades ligadas ao tratamento da dor crónica à dor oncológica, mas, a não ser quando integrada num IPO, os doentes oncológicos são uma minoria. A maior parte dos nossos utentes, aqui no Garcia de Orta, que é um hospital polivalente, que serve uma população enorme, sofre de lombalgia, a dor nas costas, que é a patologia número um, esmagadora. É assim em toda a parte do mundo. Temos cerca de 200 doentes oncológicos e mil e tal outros não oncológicos.

Mas a primeira unidade de dor em Portugal foi criada precisamente no IPO de Lisboa, nos anos 1980.

Sim, com o Dr. Luís Portela, que é o meu pai da dor. Foi ele que me levou a dar os primeiros passos nesta área. É uma pessoa formidável, especialíssima, de quem eu sou muito amiga e a quem sou eternamente grata.

As chamadas medicinas alternativas, que atualmente estão debaixo de fogo, na guerra entre a ciência e a pseudociência, não podem ser complementares e coadjuvantes da medicina tradicional na área da dor?

Eu sou médica da medicina clássica há 44 anos, mas penso que há sempre um grande risco no pensamento dogmático e este caso não é exceção. O dogmatismo é perigoso porque às vezes raia o fundamentalismo e isso nunca é positivo. Tem que se ponderar e acautelar. E depois é o léxico. O que é isso de medicinas alternativas? Eu posso estar a conversar com alguém e essa conversa ser tão benéfica que contribui para o meu bem-estar e ajuda no plano terapêutico integrado. Os doentes que chegam aqui são de fim de linha, já tentaram tudo e nós, depois de feito o diagnóstico, estabelecemos um plano terapêutico integrado, que é discutido com o doente e contratualizado com ele.

E esse plano terapêutico pode incluir técnicas não convencionais?

Pode incluir massagem, eletroacupuntura, eletroestimulador modular, radiofrequência, diatermia ou só comprimidos, o que for. Se o doente se der bem com ozonoterapia, que é uma das matérias que está em discussão, faz. Ainda não há estudos que comprovem completamente, mas os estudos para este tipo de coisas não são exatamente o mesmo que para os fármacos. Mais, se isso contribui para o bem-estar do doente e não tem prejuízo – a máxima de Hipócrates é no nocere (não prejudicar) – qual é o mal? Agora, é preciso é ser feito com indicação médica e por médicos. Apesar de nem todas estas terapias cumprirem os critérios da medicina baseada na evidência, quem trabalha em medicina da dor é como quem trabalha em reabilitação, o que nós queremos é reabilitar o doente em termos individuais, familiares, laborais e sociais e se isso contribuir e não há prejuízo para o doente, muito bem, seja.

A dor tem uma componente emocional e o exemplo disso é quando entalo o dedo numa porta, apesar da dor que sinto, pode ter a certeza que, se disser um grande palavrão, ficarei muito mais confortada.

A dor tem uma componente…

Subjetiva.

Sim, e psicológica, psicossomática.

Não, há um perigo muito grande de se dizer que a dor é uma somatização, porque leva aos rótulos e desvalorização. Apesar dos avanços formidáveis nestas últimas duas décadas, o cérebro continua a ser um mundo desconhecido e a gente arruma tudo no saco azul dos rótulos. É muito perigoso. Há que examinar o doente até à exaustão para perceber a origem da dor de que se queixa. É verdade que a dor – por isso é que não é um sinal, é um sintoma – tem uma componente não física, emocional. O exemplo mais acabado disso é quando entalo o dedo numa porta, apesar da dor que sinto, pode ter a certeza que, se disser um grande palavrão, ficarei muito mais confortada. Isso faz parte da definição de dor: é uma experiência desagradável física e emocional, pode pesar mais o emocional ou mais o físico, mas tem as duas vertentes.

É o caráter subjetivo da dor que torna mais difícil defini-la?

Sim e daí o risco de se ser dogmático. Isso é muito fácil desvalorizar quando é a dor dos outros.

E também torna mais difícil o diagnóstico?

Com certeza. Há diagnósticos que são muito fáceis e não deixam grandes dúvidas, mas por exemplo uma nevralgia do trigémeo, que é das dores mais excruciantes que há e inclusivamente pode levar ao suicídio, tal a intensidade da dor. Ainda assim, há famílias que não entendem e pensam que o doente está a exagerar. A ignorância é muito atrevida. Há que ser cauteloso. Há sempre simuladores, mas são uma minoria e é muito fácil detetá-los com contraprovas. Devo dizer que dos doentes que acedem aqui ao centro multidisciplinar de dor é muito raro haver simuladores, cada vez mais raro.

Como se quantifica a dor?

Essa é uma pequena alínea do que é caracterizar a dor. A dor é um puzzle. Eu se consulto alguém com dor que vem ao nosso serviço tenho que saber quando é que começou, se tem evoluído, se tem agravado, se tem aliviado, o que é que alivia e o que é que agrava, como descreve a dor, arde pica, dói, lateja, tenho que saber qual é a localização, se está num sítio só ou foge para algum lado. Se foge para algum lado pode ter muitos significados. A intensidade, se é muita, se é pouca, o 0 a 10 é uma pequena alínea. Reduzir a dor à sua intensidade é um erro. Tenho que fazer um interrogatório importante, com um guião próprio, para depois construir um todo, porque o doente não consegue reproduzir a dor para eu sentir o que ele sente, graças a Deus, se não estávamos tramados.

Quem chega aqui, a este Centro Multidisciplinar da Dor?

A acessibilidade é exclusivamente por referenciação dos médicos de família da área de influência do hospital ou de médicos especialistas do mesmo. Quanto a listas de espera tentamos que sejam o mais reduzidas possível. É claro que se eu estiver a consultá-la e propuser um tratamento já criei uma lista de espera para si, mas que é normal, daqui a uma semana vai fazer. Humanamente somos finitos, o espaço também é finito e os horários também são finitos. O hospital tem porta aberta para quase meio milhão de habitantes e é um hospital sozinho, não é uma constelação, como outros, e é muito diferenciado, tem mais de trinta especialidades. Isto para lhe dizer que tentamos reduzir ao máximo a lista de espera, priorizamos pelo tipo de referenciação que os médicos fazem e pela qualidade da mesma. Vemos qual é o caráter de urgência e obedece a códigos, tem prazos, de 15 dias, um mês, oito semanas, conforme as patologias, até ao máximo de 12 semanas.

Evoluiu muito nos últimos anos [a cobertura de consultas de dor], mas há zonas que continuam muito carentes. Faz falta em todo o lado, inclusivamente aqui, mas há zonas extensas do país em que não há nada.

Quais são as valências?

Temos uma agenda de serviços muito variada. Temos atividade de ambulatório, que se distribui por consulta externa, consulta multidisciplinar, consulta telefónica – temos uma linha aberta nos dias úteis das 9h às 17h para os doentes telefonarem e porem as questões que tenham a pôr, porque há pessoas que trabalham ou não têm maneira de se deslocar e às vezes são pequenas dúvidas que se resolvem telefonicamente -, hospital de dia e bloco operatório de cirurgia ambulatória e depois temos a atividade de internamento ou induzido por nós – para tratamentos ou para titulações de alguém que está com dor descontrolada ou, que é o mais frequente, os colegas das várias unidades de internamento do hospital, das várias especialidades médicas e cirúrgicas, solicitarem o nosso apoio para alguém que está com a dor não controlada. Nessa agenda de serviços, o que fazemos? Imensa coisa, desde terapêuticas invasivas a não invasivas, de medicamentosas a não medicamentosas, fazemos acupuntura, eletroacupuntura, radiofrequência, bandas neuromusculares, diatermias, ondas de choque, neuroestimulação medular, enfim, a agenda é muito variada.

A cobertura nacional deste tipo de consulta é suficiente?

Evoluiu muito nos últimos anos, mas há zonas que continuam muito carentes. Faz falta em todo o lado, inclusivamente aqui, mas há zonas extensas do país em que não há nada, nomeadamente a faixa do interior. As coisas estão muito concentradas nos grandes centros.

A falta de anestesistas contribui para essa falta?

É um erro pensar que só os anestesistas fazem medicina da dor. Eu sou anestesista, mas não é obrigatório ser anestesista. Este centro é o único em Portugal continental que é independente do serviço de anestesia e o ideal seria que, na medida do possível, assim fosse em todas as unidades de dor crónica, porque senão não têm agenda própria, não têm staff próprio e a gestão torna-se muito mais difícil. Temos as melhores relações com o serviço de anestesia como temos com os outros serviços, mas os problemas deles são resolvidos lá e os nossos problemas são resolvidos aqui.

O que é que ainda está por fazer na área da dor?

Em termos gerais, toda a formação que foi feita, está a ser feita e vier a ser feita, seja para os médicos da área hospitalar, seja para os médicos da medicina geral e familiar, é pouca. E quem diz médicos, diz todos os outros profissionais de saúde. Porque como lhe disse na universidade não há dedicação a esta matéria. A dor e a febre são os dois principais biomarcadores clínicos e no entanto para a dor toma aí umas pastilhas e já está. Para a dor aguda pode ser assim, para a dor crónica não.

Ensinam-nos a lavar os dentes, a ser bem educados, a tomar banho, mas ninguém nos ensina como devemos sentar-nos, deitar-nos, levantar-nos… e as posturas que as pessoas têm, então no trabalho, é uma coisa horrível.

A que se deve esta desvalorização?

Há 16 anos, precisamente, o ministério da Saúde, através da Direção Geral de Saúde, enviou uma circular normativa, com valor de lei, em que equiparou a dor ao quinto sinal vital, obrigando ao seu registo. Eu gostaria que se fizesse um levantamento a ver quantos o fazem. Há nichos, há ilhas, que fazem e bem, mas a maior parte não o faz. É um não assunto.

E por que é que isso acontece?

É uma questão cultural, religiosa, cívica, mas, pior ainda, é uma aculturação da parte dos profissionais de saúde e a responsabilidade é geral. Não se pode apontar o dedo a a, b ou c, mas as escolas que formam os profissionais de saúde têm responsabilidades acrescidas. Se me perguntar o que faz falta na medicina da dor, respondo-lhe que falta um mapa de referenciação. Dentro de portas, o que estamos a fazer agora é particularizar. A patologia mais prevalente é de tal ordem – a lombalgia – que vamos criar um Centro de Coluna Lombar dentro do nosso Centro Multidisciplinar de Dor, tal é o volume de doentes. Vou ter dias dedicados só a tratar doentes com lombalgia.

Há muito mais mulheres com patologia de dor crónica do que homens. A mulher fisiologicamente conhece a dor muito mais cedo na vida, com as dores menstruais, do parto, etc.

E essa prevalência tão grande doenças de coluna deve-se a quê?

Em toda a parte do mundo é assim. Há questões congénitas, mas é sobretudo postural. Ensinam-nos a lavar os dentes, a ser bem educados, a tomar banho, mas ninguém nos ensina como devemos sentar-nos, deitar-nos, levantar-nos… e as posturas que as pessoas têm, então no trabalho, é uma coisa horrível. Portanto, ergonomia, questões congénitas e atitudes comportamentais e nutricionais, porque o excesso de peso é uma maçada para a lombalgia. Quando a pessoa se queixa com dores nas costas, dizemos para emagrecer na barriga. O que tem uma coisa que ver com outra? Nós éramos quadrúpedes, quisemos ser bípedes e o que está aqui despido é a coluna lombar, que precisa de apoio, sozinha não chega, tem os ligamentos e a cintura muscular para dar apoio a isto tudo. Portanto, má alimentação, barriga, falta de exercício, perda muscular, consumos de tabaco e álcool, tudo isso contribui para favorecer a patologia da coluna. No fundo, se tivéssemos mais informação e educação para a saúde – porque a iliteracia em saúde é brutal na nossa população – teríamos menos dor.

Porque é que as mulheres são as mais afetadas?

É verdade que há muito mais mulheres com patologia de dor crónica do que homens. A mulher fisiologicamente conhece a dor muito mais cedo na vida, com as dores menstruais, do parto, etc.

E suporta melhor?
Isso é relativo, tem que ver com o limiar de dor.

A tolerância à dor é diferente porquê, então?

Tem que ver com o aspeto psicológico, com certeza, mas também com a nossa genética. Os meus recetores são uns, os seus são outros. Há o aspeto genético, há o aspeto emocional e há o aspeto cultural, e estão casados uns com os outros. Contra a genética não podemos lutar, talvez um dia, com a engenharia genética mais apurada, vá lá, mas em termos comportamentais e culturais, há muito que podemos fazer, mas isso tem que ver com literacia em saúde e formação para a população em geral.

Os canabinoides não são panaceia geral, como a morfina ou o ópio nunca foram. Vão ter com certeza indicações muito firmes e precisas, haverá doentes que podem beneficiar e outros que não, como qualquer outro fármaco.

Quais foram, nos últimos anos, os grandes avanços científicos nesta área?

Foram bastantes. Mas isto é um iceberg, ainda está tanto por saber, com grande desgosto meu, que queria viver mais cem anos para ver o que vem a seguir. O cérebro tem sete véus e dois ou três já estão levantados, ainda faltam os outros. E quando falamos no cérebro, falamos também do sistema nervoso central e periférico, da sua fisiologia e da sua fisiopatologia e depois da farmacologia e de como isto acompanha. Outra coisa que também evoluiu imenso foram os dispositivos médicos. Hoje, muitos doentes que precisavam de ser submetidos a cirurgia já não o são graças a esses dispositivos. Há uma evolução muito favorável.

E os canabinoides são mais uma esperança na área da dor?

Não há banhas da cobra. Era bom, está aqui um produto e já está. É importante dizer que não falamos em canabis, falamos em substâncias canabinoides, que é diferente. A canabis tem cento e tal substâncias e só nos interessam quatro ou cinco, que são aquelas que podem ter utilidade médica. Na dor, ainda não está provado o efeito. Uma coisa é certa, resulta em determinadas patologias, nomeadamente na esclerose múltipla, que quando tem dor crónica, a chamada dor neuropática central, que afeta cerca de 25 por cento dos doentes, parece ter aí uma mais-valia. Na emese, ou seja, na náusea e no vómito, também, mas isso, na maior parte das vezes, não está associado à dor. Mas que dá bem-estar, dá. Há doentes que, por sua iniciativa, adquirem no exterior, porque cá ainda não está regulamentado nem está disponível, e em algumas situações complementa com o tal plano terapêutico integrado. Mas não é panaceia geral, como a morfina ou o ópio nunca foram. Vão ter com certeza indicações muito firmes e precisas, haverá doentes que podem beneficiar e outros que não, como em tudo, como qualquer outro fármaco, que tem as suas indicações.

Segundo as contas do professor Castro Lopes, é como se comprássemos todos os anos sete submarinos. É quanto custa, custos diretos e indiretos, a dor crónica em Portugal.

Quais são os custos de não tratar a dor?

Elevadíssimos. Há um estudo feito pela Universidade Católica em 2010 ou 2011, que à época indicava que os custos indiretos, nomeadamente laborais, só das dores nas costas e articulares, eram de 710 milhões de euros por ano. Um estudo do professor Castro Lopes, que fez o cálculo de custos diretos e indiretos anuais, estimava que estes chegariam cerca de 1,7 do PIB, em 2012. É brutal. E esses custos trepam onde, além da saúde? No campo laboral, com o absentismo, o presentismo, as baixas médicas, as reformas antecipadas, o tempo parcial, tudo isso tem um peso brutal que eu acho que os nossos políticos, que estão na posse desses números, subestimam. A diabetes é importantíssima, a hipertensão é importantíssima, a obesidade é importantíssima, mas a dor é tão ou mais importante até em razão deste impacto no erário público. O professor Castro Lopes até arranjou uma mnemónica engraçada, dizia que, segundo as suas contas, é como se comprássemos todos os anos sete submarinos. É quanto custa, custos diretos e indiretos, a dor crónica em Portugal.

Portanto, todo o investimento nesta área é justificado.

É. Perguntava no início porque é que eu digo que vivo numa ilha. Olhe, é por porque ainda hoje tive uma boa notícia e estou muito contente. Vamos dar mais um passo importante e criar aqui um centro de coluna lombar, tivemos autorização do conselho de administração do hospital, porque é necessário mais recursos que foram autorizados exatamente porque há uma lista de espera enorme desses doentes noutras áreas do hospital e que estão três, quatro anos à espera e tem que se lhes dar resposta. Não é a nossa lista de espera, é a de serviços exteriores ao Centro Multidisciplinar de Dor e isto agora vai ser a todo o vapor.

Portanto, não vai reformar-se, como tinha anunciado?
Não. Vou reformar-me, mas vou ficar a trabalhar a tempo parcial. Até era perigoso, tantas décadas a trabalhar intensamente e parar de repente. Vou ficar a trabalhar mais maneirinho e daqui a uns tempos saio. A equipa é muito boa, é jovem e dinâmica, são todos muito bons, com muito boa formação.

A dor pode não ser causa direta da morte, mas pode contribuir para esta. Morre-se muito com dor e isso é inadmissível nos dias de hoje.

A paixão por esta área vem de onde?

A escolha da anestesia já fazia prever, mas quando comecei, apercebi-me que a analgesia – tirar a dor – do pós-operatório era nenhuma e interessei-me pelo controlo da dor, gosto muito de clínica, foi por isso que tirei o curso. Depois, infelizmente, no meu percurso um dos meus filhos teve uma doença muito grave, com a vida em risco, acompanhado de dor excruciante, tinha 14 anos na altura e eu pensei: ninguém pode sofrer isto, isto é uma tortura. Ele foi tratado, mas isso foi o gatilho para me dedicar à dor crónica. As pessoas têm direito a não ter dor.

A dor pode matar?

Não, mas morre-se com dor, morre-se muito com dor. A dor pode não ser causa direta da morte, mas pode contribuir para esta. Morre-se muito com dor e isso é inadmissível nos dias de hoje.

Sim, é preciso saber envelhecer. Envelhecer de cabeça e de corpo. E têm falsas expectativas, acham que se tomarem umas coisas ficam operacionais e depois ficam defraudados.

Como se justifica?

Não há justificação. Falta de meios, ignorância, a dor é negligenciada. Ainda hoje, nos nossos hospitais, morre-se com dor, cada vez menos, mas ainda acontece. Há aqui outra matéria muito difícil, que mais uma vez tem que ver com iliteracia na saúde, sobretudo nos idosos, que não foram ensinados a envelhecer.

Ensinados a envelhecer?

Sim, é preciso saber envelhecer. Envelhecer de cabeça e de corpo. E têm falsas expectativas, acham que se tomarem umas coisas ficam operacionais e depois ficam defraudados. Uma das grandes preocupações do nosso serviço é a gestão das expectativas dos doentes, porque o desejo do doente é que a dor seja zero, mas há coisas que não dá para ser zero, era preciso substituir as peças todas. E portanto é algo com que ocupamos muito tempo, explicar-lhes o quadro verdadeiro do que é expectável no caso deles, porque, se criam falsas expectativas, é uma frustração para o doente, para a família e para o profissional. E há doentes que não entendem nem admitem o que é envelhecer. As gerações atuais estão a viver até cada vez mais tarde. E espero que daqui a duas ou três gerações, que já acompanharam o envelhecimento dos seus pais e avós, se perceba melhor o que é o processo de envelhecimento.

Há pouco falava no direito a não ter dor. Mas ainda hoje não é pacífico, por exemplo, o parto sem dor.

As pessoas são livres de escolher o que quiserem, mas para quê ter dor se há uma forma de não a ter? A dor interessa para quê? Como sinal de alarme, mas hoje temos conhecimentos, pelo menos nessa área, extremamente bons e é possível tirar completamente a dor à mulher e ela vai colaborar melhor. Já não preciso da dor como sinal de alerta para sobrevivência. Há um século, podia fazer sentido, muita dor indicava que a criança estava mal posicionada, podia ter o cordão à frente, mas hoje isso não é preciso, há formas de monitorizar. Agora, se for uma escolha da mulher, tudo bem, está no seu direito. Claro que a epidural não é isenta de riscos, nada é isento de riscos e de vez em quando há incidentes ou acidentes, mas também é verdade que num parto com muita dor a mulher colabora pior e a criança não vem tão bem e quando a mulher sente dor, o feto está a acompanhá-la, também sente.

Esta é uma área em que não é difícil de acontecer o burn out. A nossa metodologia de trabalho multidisciplinar ajuda-nos, mas há casos que não lembra ao diabo, não se deseja ao pior inimigo e, por muita capa que criemos para nos defendermos, há casos que nos cilindram.

Tem algum caso que a tenha marcado particularmente?

Ah, sim. Uns pela patologia. Outros pela pessoa. Nós somos seres humanos e há pessoas com quem estabelecemos ligações especiais. Aliás, se não criarmos uma ligação empática com o doente, mais vale dizermos que não temos competência para o tratar e pedir a um colega para o fazer. Mas há pessoas com quem criamos uma proximidade muito maior. Quando são crianças é natural que seja maior o melindre e a fragilidade, mas também adultos e pessoas idosas que tocaram especialmente. Outros pelo reconhecimento, porque debatemo-nos e lutamos pelas pessoas e é bom quando nos dão o retorno. O melhor retorno que podem dar é ficarem melhores, mas à parte disso há depois a relação afetiva, a ligação emocional muito boa e que é um ganho enorme. Mas também há uma coisa que tenho que dizer, quando entra um novo elemento para a equipa eu aviso sempre no início, que temos que nos acautelar e defender, porque às vezes envolvemo-nos demasiado com o caso de um doente e a preocupação é tal que, em excesso, é perigosa para nós e não é saudável para o doente.

Como é que se faz esse equilíbrio?

Às vezes não é fácil, mas como nós temos um carácter multidisciplinar acaba por se diluir. No início, quando era eu sozinha e depois quando éramos menos era mais difícil. Agora, os mais experientes vão tamponando esses aspetos emocionais, mas sofre-se, esta é uma área em que não é difícil de acontecer o burn out. A nossa metodologia de trabalho ajuda-nos muito, porque há casos que não lembra ao diabo, não se deseja ao pior inimigo e é impossível, por muita capa que a gente crie para nos defendermos, há casos que nos cilindram. E aí esta maneira de trabalhar ajuda-nos a manter a saúde mental. É uma área dura sob o ponto de vista físico e psicológico.

Quantas horas trabalha por dia?

Semanalmente, 40.

Não, quantas horas trabalha de facto?

Sei lá, 50, 60. Depois, também levamos trabalho para casa e há as formações e os congressos. É muito, mas é tempo bem gasto. Toda a equipa é assim. Nós estamos numa instituição pública e não temos horas extraordinárias e quando foi a história de meter o dedo (dado biométrico) ficámos delirantes, fomos dos raros que ficámos contentíssimos, porque agora está tudo registado, as bolsas de horas de todas as pessoas que aqui trabalham estão cheias, mas ninguém se queixa, porque calha a todos. Não há ninguém encostado às boxes. Nem há onde encostar. É sempre a andar.

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Quarta-feira, 5 de Junho de 2019

Sobre o Serviço de Cardiologia do CHMT

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5 Junho, DIA MUNDIAL DO AMBIENTE

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12 Junho, Reunião da Comissão de Utentes

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Sexta-feira, 31 de Maio de 2019

Melhorar a qualidade de vida!

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Quinta-feira, 30 de Maio de 2019

O protocolo com as Câmaras Municipais foi assinado a 15 de Setembro de 2018

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