Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Opinião (2)

Uma política assassina

A notícia sobre uma doente com cancro que esperou dois anos por uma colonoscopia e que, por esse facto, está agora confrontada com um cancro cujas dimensões o tornam inoperável – situação que podia ter sido evitada caso o exame tivesse sido realizado quando, após vários rastreios, surgiu uma análise positiva –, trouxe para primeiro plano, mais uma vez, a discussão em torno das opções políticas que estão a ser feitas no sector da Saúde.

 

Image 14851

 

Não tivesse sido mediatizado e este caso seria mais um, entre muitos outros, cujo conhecimento ficaria limitado apenas ao universo familiar da doente. A natureza do caso e a profunda indignação que causou na opinião pública fez com que os responsáveis por esta situação – que normalmente, sobretudo quando se trata de assumirem responsabilidades, se escondem por detrás de um muro de silêncio – se tenham multiplicado em declarações procurando justificar o injustificável, «sacudir a água do capote» e anunciar inquéritos, cujo objectivo é sempre o mesmo, passar a responsabilidade para o elo mais fraco do sistema. Até podemos adiantar desde já o resultado final do inquérito que, por estas ou outras palavras, apontará para uma conclusão do tipo: os serviços não cumpriram o protocolo estabelecido para situações como a que ocorreu no Amadora/Sintra.

Contudo, há uma novidade importante neste caso. Pela voz da presidente da Associação Nacional dos Gestores Hospitalares, os portugueses ficaram a conhecer que a Lei dos Compromissos, associada aos cortes de centenas de milhões de euros nos orçamentos dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde, tem levado os hospitais a atrasarem cirurgias, exames, consultas, tratamentos e a entrega de medicamentos, em nome de uma opção imposta pelo Governo, com que os gestores procuram defender-se de possíveis penalizações financeiras e jurídicas, no plano individual. Este é um problema cuja origem ultrapassa em muito o facto de termos como ministro da Saúde um especialista em cobrança de impostos, insensível aos problemas das pessoas.

O que aconteceu a esta doente é o resultado de uma política de Saúde que, nos últimos anos, foi marcada por um acentuado desinvestimento no SNS, gerador de diversos constrangimentos que colocam em causa a eficácia do desempenho dos estabelecimentos públicos de Saúde e, progressivamente, dificultam o acesso dos utentes aos diversos serviços. Ao mesmo tempo, o Governo impõe a aplicação da Lei dos Compromissos na Administração Pública. A sua aplicação nos hospitais públicos significa o abandono do tratamento adequado dos doentes.

O problema está na política

É a missão dos hospitais que está em causa, exercendo ainda, uma pressão absolutamente inaceitável sob os decisores hospitalares, pois estarão confrontados com a seguinte decisão: ou cumprem uma lei implacável que penaliza os doentes e quem estiver do lado destes, ou fazem o que é necessário para os doentes terem acesso aos cuidados de Saúde que necessitam e, por esse facto, serão penalizados. É sintomático que numa linha de redução de custos, a ARS elabore um perfil do médico onde é registado o número de exames que cada um manda fazer, medida que aparece mais nos cuidados primários, mas também nos hospitais. Aquilo que parece ser uma medida parar parar com os excessos, ou mesmo impedir algumas irregularidades, acaba por condicionar fortemente os médicos na sua autonomia e dar cobertura a uma política restritiva.

Não vale a pena virem agora, à pressa, apresentar soluções de última hora, porque o problema é de fundo e, por isso, só terá solução quando este Governo e esta política forem derrotados. Da nossa parte, não calaremos a indignação e a revolta e reafirmamos a acusação de que este Governo tem para a Saúde uma política assassina que condena à morte antecipada milhares de portugueses.

Ao contrário do que o Governo afirma, o caminho que escolheu não é uma inevitabilidade; nem é verdade que não existam recursos suficientes para garantir o acesso aos cuidados de Saúde através de um instrumento essencial que é o SNS. A situação que hoje se vive neste sector e a sua previsível evolução no curto prazo não se pode desligar de uma estratégia global de empobrecimento do País e dos portugueses, sustentada politicamente no pacto de agressão, mas também no ajuste de contas que está ser perpetrado por parte da direita mais reaccionária com esta que é uma das mais importantes conquistas de Abril: o direito à Saúde.

Milhões de portugueses já têm hoje muitas dificuldades em aceder aos cuidados de Saúde. Muitos já não têm mesmo acesso aos cuidados de que necessitam em tempo útil. Só com um Serviço Nacional de Saúde de carácter público, universal e gratuito para todos é possível assegurar aos portugueses os cuidados de Saúde de que necessitam e acabar de vez com situações como a que ocorreu no Amadora/Sintra.

 

J. Pires

publicado por usmt às 21:54
link do post | favorito

.USMT:Quer nos Conhecer?

  • O que somos
  • Oque fazemos
  • O que defendemos
  • .Vamos criar a Associação de Defesa dos Utentes da Saúde

  • Saber Mais
  • .Leia, Subscreva e Divulgue a Petição ao Senhor Ministro da Saúde Sobre as Novas Taxas Moderadoras Para Internamentos e Cirurgias

  • Petição Movimento de Utentes da Saúde
  • .USMT Mail:

    usaudemt@hotmail.com

    .Abaixo-Assinado

  • Queremos Médicos na Meia Via, Ribeira e Pedrógão
  • .pesquisar

     

    .Jornais Regionais On-Line

  • O Templário
  • Cidade de Tomar
  • O Mirante
  • O Ribatejo
  • Torrejano
  • Almonda
  • O Riachense
  • Entroncamento On-Line
  • Notícias de Fátima
  • .Organizações & Comições

  • MUSS
  • Movimento Utentes Saúde
  • OMS
  • .Posts Recentes

    . TOMAR: Falta médico na Ex...

    . Uma das intervenções no C...

    . Saudação ao Congresso CGT...

    . TORRES NOVAS: TAC no Hosp...

    . Recorda-se a CARTA ABERTA...

    . Jornadas do ACES MÉDIO TE...

    . 18 de Fevereiro, reunião ...

    . Reunião da Comissão de Ut...

    . Uma luta para todos os di...

    . Reunião da Comissão de Ut...

    .Arquivos

    . Fevereiro 2020

    . Janeiro 2020

    . Dezembro 2019

    . Novembro 2019

    . Outubro 2019

    . Setembro 2019

    . Agosto 2019

    . Julho 2019

    . Junho 2019

    . Maio 2019

    . Abril 2019

    . Março 2019

    . Fevereiro 2019

    . Janeiro 2019

    . Dezembro 2018

    . Novembro 2018

    . Outubro 2018

    . Setembro 2018

    . Agosto 2018

    . Julho 2018

    . Junho 2018

    . Maio 2018

    . Abril 2018

    . Março 2018

    . Fevereiro 2018

    . Janeiro 2018

    . Dezembro 2017

    . Novembro 2017

    . Outubro 2017

    . Setembro 2017

    . Agosto 2017

    . Julho 2017

    . Junho 2017

    . Maio 2017

    . Abril 2017

    . Março 2017

    . Fevereiro 2017

    . Janeiro 2017

    . Dezembro 2016

    . Novembro 2016

    . Outubro 2016

    . Setembro 2016

    . Agosto 2016

    . Julho 2016

    . Junho 2016

    . Maio 2016

    . Abril 2016

    . Março 2016

    . Fevereiro 2016

    . Janeiro 2016

    . Dezembro 2015

    . Novembro 2015

    . Outubro 2015

    . Setembro 2015

    . Agosto 2015

    . Julho 2015

    . Junho 2015

    . Maio 2015

    . Abril 2015

    . Março 2015

    . Fevereiro 2015

    . Janeiro 2015

    . Dezembro 2014

    . Novembro 2014

    . Outubro 2014

    . Setembro 2014

    . Agosto 2014

    . Julho 2014

    . Junho 2014

    . Maio 2014

    . Abril 2014

    . Março 2014

    . Fevereiro 2014

    . Janeiro 2014

    . Dezembro 2013

    . Novembro 2013

    . Outubro 2013

    . Setembro 2013

    . Agosto 2013

    . Julho 2013

    . Junho 2013

    . Maio 2013

    . Abril 2013

    . Março 2013

    . Fevereiro 2013

    . Janeiro 2013

    . Dezembro 2012

    . Novembro 2012

    . Outubro 2012

    . Setembro 2012

    . Agosto 2012

    . Julho 2012

    . Junho 2012

    . Maio 2012

    . Abril 2012

    . Março 2012

    . Fevereiro 2012

    . Janeiro 2012

    . Dezembro 2011

    . Novembro 2011

    . Outubro 2011

    . Setembro 2011

    . Agosto 2011

    . Julho 2011

    . Junho 2011

    . Maio 2011

    . Abril 2011

    . Março 2011

    . Fevereiro 2011

    . Janeiro 2011

    . Dezembro 2010

    . Novembro 2010

    . Outubro 2010

    . Setembro 2010

    . Agosto 2010

    . Julho 2010

    . Junho 2010

    . Maio 2010

    . Abril 2010

    . Março 2010

    . Fevereiro 2010

    . Janeiro 2010

    . Dezembro 2009

    . Novembro 2009

    . Outubro 2009

    . Setembro 2009

    . Agosto 2009

    . Julho 2009

    . Junho 2009

    . Abril 2009

    . Fevereiro 2009

    . Janeiro 2009

    . Dezembro 2008

    . Novembro 2008

    . Outubro 2008

    . Setembro 2008

    . Agosto 2008

    . Julho 2008

    . Junho 2008

    . Maio 2008

    . Abril 2008

    . Março 2008

    . Fevereiro 2008

    . Janeiro 2008

    . Dezembro 2007

    . Outubro 2007

    . Setembro 2007

    . Agosto 2007

    . Julho 2007

    . Maio 2007

    . Abril 2007

    . Março 2007

    . Fevereiro 2007

    . Janeiro 2007

    . Dezembro 2006

    . Novembro 2006

    . Outubro 2006

    blogs SAPO

    .subscrever feeds